A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) anunciou nesta quinta-feira (12) que deu início a uma ação judicial contra o apresentador Ratinho e a emissora SBT. A decisão ocorre após o comunicador questionar a identidade de gênero da parlamentar durante o Programa do Ratinho, alegando que mulheres trans não deveriam ocupar cargos destinados a mulheres. Em nota oficial, a deputada classificou a atitude como uma violência que ultrapassa as fronteiras da política.
Segundo a parlamentar, o discurso proferido em rede nacional atinge um público amplo, incluindo mulheres cisgênero que não menstruam ou que precisaram remover o útero por questões de saúde.
Erika Hilton afirmou que o apresentador demonstrou uma visão retrógrada e misógina ao reduzir a figura feminina a funções reprodutivas. “Este ataque foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não seguem o roteiro que ele considera certo”, declarou a deputada em sua manifestação.
Confira a nota da parlamentar na íntegra
Em sua resposta pública, Erika Hilton utilizou palavras fortes para descrever o comportamento do apresentador e relembrou o histórico do empresário. Abaixo, confira o texto publicado pela deputada:
“Sim, estou processando o apresentador Ratinho. Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência. Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim. Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres. Este ataque de Ratinho foi contra todas as mulheres trans e contra todas as mulheres cis que não menstruam mais ou nunca menstruaram. Foi contra todas as mulheres cis que nunca tiveram útero ou, por condições de saúde, como o câncer, precisaram removê-lo. Foi contra todas as mulheres que não podem ou não querem ter filhos. Foi contra as mulheres que perderam seus filhos ainda na gestação. O discurso de Ratinho foi, sim, para me atacar e atacar as pessoas trans. Mas demonstrou a misoginia, o ódio primal que essa figura nojenta tem de toda e qualquer mulher que não siga o roteiro que ele considera certo. E, para ele, mulheres são máquinas de reprodução. Eu quase me surpreendi ao assistir a um raciocínio tão retrógrado. Mas aí lembrei das notícias reportando que, em 2016, 128 anos depois da abolição da escravatura, Ratinho submetia pessoas à escravidão em suas fazendas no Paraná. E o apresentador pode até querer viver nesse passado, dentro de sua cabeça. Se a preocupação com as denúncias que farei contra um escândalo envolvendo o seu filho e o crime de estupro de vulnerável mais tarde não ocupar toda a sua capacidade cerebral, é claro. Mas aqui fora, no mundo real, ele e o SBT pagarão pelos seus atos, na esfera cível e criminal. E eles não pagarão a mim, mas a todas as mulheres vítimas de violência, trans e cis. Por fim, vale lembrar: eu sou e sempre serei uma mulher. Este apresentador é, e sempre será, um rato.”
Repercussão no Congresso e medidas criminais
O caso agora segue para a análise do Poder Judiciário, onde Erika Hilton busca a responsabilização criminal por transfobia, crime que é equiparado ao racismo no Brasil. A parlamentar relembrou notícias de 2016 que reportavam a submissão de trabalhadores a condições análogas à escravidão em fazendas de propriedade do apresentador. A menção serviu para contextualizar o que a deputada chamou de “raciocínio retrógrado” do contratado da emissora paulista.
A movimentação jurídica recebeu apoio de frentes parlamentares, que pressionam por uma postura mais rígida da Câmara dos Deputados. O SBT, que já havia emitido uma nota de repúdio às falas do apresentador anteriormente, ainda não comentou especificamente sobre a nova ação judicial.
